A importância do Terceiro Setor para o Brasil
Qual a importância do Terceiro
Setor para o desenvolvimento do país?
Desenvolvimento é um termo muito
utilizado no campo da economia e sempre que nele falamos pensamos em
crescimento do PIB, superávit ou déficit. Torna-se quase que uma unidade de
medida para verificar o sucesso ou declínio de um programa ou sistema econômico
de um estado, país ou bloco econômico. Ao se levantar esta questão pensa-se
forçosamente em ações desenvolvidas pelo primeiro ou segundo setor, já que
estes possuem em suas mãos o mercado e a máquina estatal. Produzem leis,
arrecadam impostos, investem em programas, criam estatais, movimentam o
mercado. Ao fazermos tal leitura pensamos numa sociedade bem dividida, em
setores denominados primeiro, segundo e terceiro setor. Trazem-nos a ideia de
que estes são altamente independentes e autossuficientes. Aqui surgem as seguintes perguntas: qual a
importância do terceiro setor para o desenvolvimento do país? Será que sua
natureza de trabalho e missão permite criar mecanismos para se medir sua cota
de participação no desenvolvimento econômico? A resposta para esta pergunta
exige um olhar minucioso, o que nos propomos a seguir.
O termo Terceiro Setor ainda é de
certa forma, recente no Brasil. Segundo Landim (1998) e Fernandes (1997) existem
quatro movimentos para constituição do terceiro setor no Brasil. O primeiro
momento data da colonização do Brasil até meados do século XX, com a presença
de associações de voluntários, principalmente de origem religiosa católica. Um
segundo momento nas décadas de 1930 a 1960, com forte marca assistencialista e
aversão ao questionamento social. Já na década de 1970, terceiro momento, surge
os movimentos sociais, porta-vozes dos problemas locais de uma forma já organizada.
Mas, segundo estes autores, somente a partir do fim da década de 1980 e nos
anos 1990 nasce o terceiro setor propriamente dito. Este quarto momento é
marcado pela elaboração de leis importantes que defendem os direitos do cidadão
e é justamente para defesa e garantia dos direitos que surge o terceiro setor. Seguindo
uma cronologia em 1988 temos a homologação da Constituição Federal Brasileira,
também conhecida como Constituição Cidadã; em 1990 a lei 8069, Estatuto da
Criança e do Adolescente; em 1991 a lei 8313 de Incentivo à Cultura; em 1993 a
lei 8742, da Assistência Social; 1998 a lei 9608, do trabalho voluntário e em
1999 a lei 9790 que qualificam as associações como OSC’s. Todos estes momentos
podem ser tomados, também, como uma divisão histórica para estudo do terceiro
setor no Brasil. Pois não é o fato de ausências de leis que o definisse que as
ações não acontecessem.
Com isso, percebe-se que na visão de
Landim (1998) e Fernandes (1997) o marco para nascimento do terceiro setor está
a partir do momento em que se organiza a discussão sobre os direitos do
cidadão. Uma discussão sistemática e legal, mas que depende da sociedade civil
organizada para sua existência. É certo que o cumprimento da lei é dever
daqueles que a elaboram, pois preveem recursos, provisões, programas e normas
para sua execução. Neste caso o dever pela garantia dos direitos estaria nas
mãos do primeiro setor, ou seja, do Estado. O governo tendo em suas mãos a
máquina estatal, a arrecadação necessária, desenvolveria programas para a
garantia dos direitos de toda a população, tendo a participação do Mercado, sua
base de fonte de recursos. Por este motivo quando se fala em desenvolvimento, pensa-se
forçosamente em primeiro e segundo setor. Mas qual a parcela de participação do
terceiro setor neste desenvolvimento?
Manãs e Medeiros (2012) ao citarem
as características das organizações do terceiro setor destacam a visão do Financial Accouting Standards Board (FASB),
ressaltando justamente as características que as distinguem das que possuem
fins lucrativos:
a) Recebimento de
quantias significativas de recursos provenientes de doadores, que não esperam
retorno de pagamento ou benefícios econômicos proporcionados por suas doações;
b) Propósitos operacionais que são diferentes de fornecer bens ou serviços a um
lucro ou lucro equivalente; c) Ausência de interesse de propriedade definida
que pode ser vendido, transferido, ou resgatado, ou que possua direito a uma
parte de uma distribuição residual de recursos no caso da liquidação da
organização.(p.22)
Esta
visão reforça a ideia de que o terceiro setor não visa lucro, devido a seus
recursos provindos de doações sem a pretensão de retorno econômico e ausência
de propriedade que gere o direito a divisão de recursos. O terceiro setor é
marcado pelo voluntariado, pela gratuidade, pela associação de pessoas ao redor
de uma missão. Ele é caracterizado por aquilo que o diferencia do segundo
setor. Mas percebemos que existem visões diferentes. Manãs e Medeiros (2012)
destacam a visão de Paes (2003), que nos chama atenção para pontos diferentes,
ao falar da lei 9790/90, marco para surgimento do terceiro setor:
A lei nº 9790/90
engloba as entidades que formam o terceiro setor como sendo aquelas que
apresentam em seus estatutos objetivos ou finalidades sociais, dividendos à
realização de atividades de interesse público que abrangem várias áreas de
voltadas para o bem comum, com mais especificidade, a assistência básica,
cultura, saúde, educação, voluntariado, desenvolvimento econômico e social,
ética, paz, cidadania, direitos humanos, democracia, além da defesa,
preservação e conservação do ambiente.(p.23).
As
visões apresentadas acima revelam aspectos diferentes do terceiro setor, mas
elas não se excluem, na verdade apresentam complementaridade. Primeiro vemos
destacados aspectos fundantes como voluntariado, doações, filantropia e nesta
última visão os objetivos e finalidades sociais dentre as quais destacamos o
desenvolvimento econômico e social.
Desta forma, não é pelo fato de não visar lucro que o terceiro setor não tenha
como sua finalidade o desenvolvimento. O
desenvolvimento surge como forma de promover o cidadão, garantir seus direitos
e gerar renda.
Filho
(2002), ao tratar do tema terceiro setor,
economia social, economia solidária e economia popular abre a discussão
sobre o entendimento do terceiro setor no mercado e desenvolvimento econômico.
Segundo o autor, precisamos:
“ultrapassar a ideia de economia de mercado
como fonte única de riqueza, mas também condenar a redução das demais dimensões
econômicas à condição de formas parasitárias desta última. Esta visão mais
larga da economia implica, pois, enxergar estes três pólos na sua
complementaridade, como, ao mesmo tempo, criadores e consumidores de riqueza.
Nesta maneira de olhar a economia, sua redução à ideia exclusiva de mercado
tornando-se insustentável, é o mito do progresso, a crença no crescimento
econômico como fonte exclusiva do desenvolvimento e da felicidade que são
questionados.” (p.18)
Filho
(2002) nos provoca à reflexão, principalmente ao ressaltar que mesmo que as
nomenclaturas tendam a dividir, seccionar a tessitura social, estes se
complementam, pois são ao mesmo tempo,
criadores e consumidores de riqueza ( p.18). Como os outros setores, o
Terceiro produz riquezas, capacita os cidadãos nos campos da Economia Solidária
e até mesmo para a economia de mercado. A promoção do ser humano perpassa não
somente a garantia de direitos básicos de alimentação, saúde e educação, mas em
sua qualificação para o mercado de trabalho e consumidor. O terceiro Setor
visa:
Aprimoramento das aptidões e habilidades
profissionais, iniciativas beneficentes, cooperativismo, independência pessoal,
espírito humanitário, solidariedade, partilha e outras ações de efeito similar.
Trata-se de ações cada vez mais imprescindíveis para a sociedade como um todo.
As assistências sem dúvida trazem efeito construtivo para todos, principalmente
no caso do combate à mendicância, o analfabetismo e à violência. Toda a sociedade
tende a lucrar com isto, pois é na eliminação desses fatores que a compreensão
e a consciência ganham efeito construtivo e humano. (MANÃS; MEDEIROS, 2012).
A ideia de complementariedade torna-se ainda mais evidente
à medida que o indivíduo que é excluído pelo sistema capitalista, que tem o
lucro como fim, pode participar de ações que o reintegrem a este sistema ou a
uma forma de produção e economia diferentes como a economia solidária. Mas
faça-se justiça, mesmo participando da economia solidária o reflexo no
desenvolvimento econômico é evidente. O terceiro setor nasce em torno de uma
missão, de um impulso por sanar uma realidade produzida por um sistema
excludente e com isso une o grupo em busca de mudança social. Siqueira e Binotto (2008) destacam que a
natureza do terceiro setor, sua perspectiva está na mudança:
Na construção de mecanismos e formas de
envolvimento social que permitam ao indivíduo compreender sua força e a partir
dela posicionar-se de forma crítica no contexto social de forma a exercer
pressão nas formas tradicionais de opressão aceitas socialmente. (p.3)
O processo passa pelo empoderamento que ressignifica os
papéis sociais e recoloca o indivíduo como sujeito crítico. Ao fazer isso o
Terceiro Setor surge como potência transformadora e geradora de desenvolvimento
econômico e social, pois a meta não é tão somente a geração de renda, mas de
reposicionamento do cidadão na sociedade.
A parcela de participação do terceiro setor no campo
econômico ainda pode ser medida por números. Segundo Zavala (2007), ainda em
2007 o Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE), adotando
metodologia de pesquisa do Centro de Estudos da Sociedade Civil da Universidade
Jonhs Hopkins, realizou sua primeira pesquisa sobre o terceiro setor e sua participação
econômica no Brasil. Pôde-se aferir a participação de 1,4% na formação do
Produto Interno Bruto (PIB) por parte do terceiro setor, somando-se um total de
32 bilhões de reais. Manãs e Medeiros (2012) também ressaltam que mundialmente
o terceiro setor cresceu tanto que chega a movimentar cerca de 1 trilhão de
dólares, colocando-se em nível de comparação, como 8ª economia mundial. Outra
pesquisa realizada por parceria entre o Programa de Voluntários das Nações
Unidas (UNV) e o Centro de Estudos da Sociedade Civil da Universidade John
Hopkins, mostra-nos uma representatividade de 5% do PIB brasileiro.
“O fato é que todas as pesquisas mostram que
houve mesmo um boom do terceiro setor no Brasil na década de 90 e que
aparentemente isso está continuando nesta década. “São muitas as variáveis que
levam a esse crescimento; desde a abertura do mercado brasileiro a partir dos
anos 90 até a queda do Muro de Berlin em 1989, passando pela revisão do papel
do Estado.”(ZAVALA, 2007, p.2)
Manãs e Medeiros (2012), ao falarem do mercado de trabalho
absorvido pelo terceiro setor demonstram que dados do IBGE e FASFIL atestam que
o contingente de trabalhadores deste setor teve grande crescimento passando-se
de 897 mil empregados em 1990 para 1 milhão e 700 mil trabalhadores em 2007, em
338 mil Fundações Privadas e Associações sem fins lucrativos.
Com isso, os números revelam que a proposta de
desenvolvimento econômico atrelado à ideia de desenvolvimento social proposta
pelo terceiro setor, leva-nos a bons resultados ora pelo crescimento das
instituições no Brasil, ora pelo seu caráter transformador econômico/social e
ora pelo crescimento de empregos que tem gerado. O terceiro setor não pode ser
considerando como uma indefinição entre o primeiro e segundo setor, mas como um espaço intermediário na
interseção do Estado, do mercado e do setor informal (FILHO, 2012, p.19).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERNANDES, R. C.
(1997). O que é terceiro setor? In: IOSCHPE, Evelyn
Berg (org.). 3º
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Disponível em: https://dspace.almg.gov.br/bitstream/11037/1091/3/1091.pdf.
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FILHO, G. C. F. Terceiro Setor, Economia
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Acesso em 15 de jul. 2017.
LANDIM, Leilah. (1998) Ações em sociedade. Rio de
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Acesso em: 15 de jun. 2017.
MANÃS, A. V.; MEDEIROS, E. E. Terceiro Setor:
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Acesso em: 17 de jun. 2017.
ZAVALA, R. IBGE
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Acesso em 20 de jun. 2017.
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